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  • Jônatas Oliveira

Sobre o caminho e a nutrição com foco em comportamento

Atualizado: 29 de Mai de 2020

Existe um componente cultural presente na maioria dos países ocidentais que vem interferindo na construção do sujeito e nas formas de encarar as situações da vida. Somos uma sociedade que vive de valores, comparações e competição. Temos a tendência, na maioria das vezes, de nos comparar com modelos de ser e fazer que estão mais próximos de nós, como pessoas do nosso convívio. Se você quer ganhar um salário mais alto, geralmente compara o valor recebido por algum colega da área, ou até mesmo por alguém que realiza as mesmas funções que você, mas está em outra empresa, por exemplo. 


O limite entre as comparações e o senso de competitividade são sutis, pois ao mesmo tempo em que a intenção possa ser apenas de realizar uma simples análise, surge uma sensação de inferioridade que impulsiona a competitividade. Comparar nossos corpos com outros serve também de exemplo como quando vemos fotos em redes sociais de um corpo considerado "padrão". A maioria de nós conhece essa sensação que perpassa a admiração, inveja e até um desejo em buscar por esse padrão, e assim, embarca-se em um trajeto para chegar a esse resultado. Você faz suas malas e embarca sozinho nessa viagem. 


As pessoas costumam passar por caminhos que prometem resultados rápidos, como dietas restritivas, jejum intermitente ou mesmo estratégias isoladas de pular refeições ou tomar medicamentos sem prescrição. E muitos passam por estes caminhos mais de uma vez. As mudanças no humor e a forma de pensar sobre a comida geram frustrações e alterações metabólicas significativas. Muitas vezes, uma perda de peso era até necessária e pautada em critérios clínicos, mas a forma como este processo foi executado, não. Ainda que muitos pensem que apenas mudar o cardápio e se esforçar sejam a chave de mudanças no corpo e no comportamento, esse não é o único caminho. Existe uma rota alternativa, onde o processo de mudança será visto sob um olhar mais abrangente, através de um nutrição com enfoque em comportamento. 


Esse caminho caracteriza-se, frequentemente, por um trajeto mais longo e até mesmo desafiante, pois é necessário um exercício de autoconhecimento no qual acabamos descobrindo crenças, hábitos e comportamentos que precisam ser modificados, e pensamentos que podem ser desconstruídos. Com base nessas mudanças, a qualidade da alimentação e as mudanças no corpo podem ocorrer de forma segura e duradoura. 


Legal, você tem um objetivo, e optou por uma nutrição mais gentil. Está no caminho certo e tem recebido boas orientações de como mudar. Depois de alguns altos e baixos, com alguns buracos no asfalto, você passa por um trecho onde as coisas fluem melhor, parece que o asfalto está mais liso. Em um momento seguinte, uma pedra surge no caminho. Você desvia e continua, mas aparece o pensamento: "Caramba, uma pedra. Não imaginava que, nessa etapa, ainda me desviaria delas". Apesar disso, você segue e continua confiante, pois o nutricionista lhe disse que poderia ter pedras no caminho.


Durante as diversas etapas da mudança de comportamento alimentar - desde a diminuição dos comportamentos disfuncionais, até as fases finais quando ajustes finos são realizados -, o asfalto vai mudando, afinal a vida é essa viagem tão longa que estamos percorrendo, cada um em seu ritmo. O medo de voltar para comportamentos do passado pode surgir de forma um pouco mais sutil, pois já não aconteciam há tanto tempo que pensamos que está tudo bem ou que a possibilidade de eles voltarem era muito pequena. E, na verdade, está tudo bem sim. Se você saiu de um asfalto esburacado e seguiu por muito tempo em um asfalto liso, isso não significa que nunca mais haverá um buraco no caminho. Buracos ou pedras sempre existem, geralmente são situações que ativam memórias de como a gente costumava agir. 


Uma lição que a autocompaixão ensina, ao nos colocar como indivíduos mais gentis e menos críticos, é observar que não podemos idealizar a mudança de comportamento. Mudar o seu comportamento não muda as situações e nem os pensamentos que poderão surgir ao longo do caminho; mudar comportamentos é apenas aprender novas formas de lidar com as situações. Lembre-se de que temos duas importantes memórias que nos ajudam: sabemos sair do buraco e temos quem nos ajude; também aprendemos a desviar das quedas, pois treinamos ao longo do caminho. Continue dirigindo, a vida é cheia de surpresas.


Texto escrito por Jônatas Oliveira





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