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  • Jônatas Oliveira

Quais são os três hábitos geram saúde?

Atualizado: 4 de Mai de 2020

Nesta semana, recebi uma pergunta interessante, e este texto contém a resposta e também algumas reflexões. A pergunta foi: quais são os três hábitos de uma alimentação saudável?


Hábitos são comportamentos que se repetem no automatismo. Na ausência deles, somos sinalizados por meio de um incômodo. Escovar os dentes, por exemplo, é um hábito simples que se repete com alguma frequência e, quando não acontece, nos gera uma falta que aparece com algumas sensações como a falta da refrescância. Nos Estados Unidos, empresas de pasta de dente utilizaram uma substância que gera frescor na boca e que dura algumas horas. Quando a sensação passa, nos lembramos de como ela era boa e assim voltamos a escovar os dentes novamente. Isso garantia que as pessoas criassem o hábito da escovação.


Existem hábitos que podem nos aproximar de alguns resultados em saúde, como por exemplo, lembrar de beber água e evitar muita exposição solar sem proteção. Existem hábitos que podemos criar no intuito de chegar, a algum objetivo, como por exemplo escrever 5 mil palavras por semana ou ler 20 páginas de um livro diariamente.

Da mesma maneira, podemos elaborar estratégias para criar ou manter um hábito que resulte em melhorias na saúde, e muitas pessoas buscam exatamente isso: quais hábitos podem nos ajudar a ter saúde?


É preciso lembrar que saúde não é a ausência de doença, sofrimento ou condições que precisam de cuidado ou medicamento, pois, se assim o fosse, poucos seriam considerados saudáveis. Buscar saúde, por sua vez, também não é se curar de uma doença ou atingir remissão de um sintoma. Saúde engloba uma série de aspectos que incluem a qualidade do seu sono, o nível de risco que seu trabalho oferece e a qualidade de sua alimentação.

Cada um destes casos deve ser considerado individualmente, pois a experiência subjetiva e a autoavaliação (que pode ser um autojulgamento) nem sempre estão em sintonia, ou seja, você pode se sentir de uma forma que não condiz com seus exames. Isso é muito importante e deve ser conversado com seu médico, nutricionista ou outro profissional da saúde que te acompanha.


É por conta disso também que devemos considerar fatores que dificilmente conseguimos medir: nossas sensações, desejos, angústias e insatisfações. Falar sobre estes aspectos é importante, e lhe diria também que necessário para avaliarmos essa sintonia entre sensações e o estado do corpo.


Tendo em vista estas condicionantes, pensar em hábitos alimentares saudáveis torna-se uma tarefa difícil. Pensei muito sobre como juntar três grandes hábitos que possam caminhar para uma alimentação saudável e cheguei a uma conclusão.

Uma alimentação saudável deve conter, como primeiro hábito, a prática da permissão para comer todo tipo de alimento. Permitir-se é relativamente simples quando tratamos sem aprofundamento, mas é importante expandir esse conceito para uma permissão incondicional, ou seja, quando se come sem regras extremistas, sem compensações, sem julgamentos de classificação e sem condições associadas.


Quantas vezes ao final de um dia estressante você já recorreu a um chocolate para lidar com toda aquela sensação negativa? Este é um bom exemplo do comer condicionado. Comer porque “fui na academia” é outro exemplo bastante recorrente. E assim o consumo é condicionado, ou seja, uma escolha alimentar associada a um motivo. Isso não quer dizer que não precisamos ter motivos para comer. Os motivos sempre existirão, mas a questão principal é: e se o dia fosse tranquilo, você comeria o chocolate?


Às vezes peço aos pacientes para exercitarem isso, comendo um alimento como o chocolate em um contexto positivo, onde muitos diriam: "nossa, mas agora que está tudo certo é que não vou comer e seguir minha dieta certinho". Esse pensamento não faz sentido se você tem cedido ao chocolate em momentos de negatividade. A permissão incondicional traz liberdade para escolher, desejar e dizer não, mas para isso, é preciso, antes de tudo, dizer o sim!


A permissão incondicional acaba deixando pouco lugar para restrições absurdas e uma alimentação monótona, pois quem se permite acaba variando sempre, e isso também garante um aporte maior de nutrientes no consumo alimentar. Apesar de a permissão assustar algumas pessoas em um primeiro momento, o segundo hábito traz um contraponto que equilibra a ideia do "agora vou comer de tudo”: o consumo alimentar em congruência com o estado do corpo, no qual incluem-se as sensações de fome, saciedade e desejo.

O estado do corpo também depende não só dos hábitos, mas consideramos as condições clínicas que indicam algumas particularidades de consumo, como são os casos de doenças crônicas e intolerâncias alimentares.


Quando comemos com permissão e de acordo com o estado do nosso corpo, levamos em conta qual alimento em qual quantidade (sugerida pela sensação do corpo) poderá atender a um desejo. E isso também quer dizer que podemos ser estratégicos, dizendo não por algum motivo. No texto de Ellyn Satter sobre comer normal, ela diz que podemos comer um pouco a mais de um bolo porque ele está quentinho no momento, ou guardar um pouco para comer depois, e este depois pode significar comer o bolo duas vezes no dia. Isso lhe parece errado? Para alguns sim, mas essa dinâmica de escolher dois momentos com permissão é bem mais flexível do que pensar em  aproveitar e comer o máximo, porque depois não poderá mais". Este é um belo exemplo do comer restritivo, e sendo restritivo você dificilmente terá permissão incondicional, que eu colocaria como um sinônimo de liberdade para comer.


O terceiro hábito de uma alimentação saudável é considerar os contextos em que comemos. Podemos fazer escolhas alimentares em diversos ambientes, seja em uma festa, seja em uma lanchonete de rodoviária, e temos oportunidades de questionar o que será agradável, que atenda ao que nosso corpo pede, mas que esteja também de acordo com o contexto. O contexto é amplo e não diz respeito somente ao ambiente, mas também sobre como nos sentimos. O chocolate ao final do dia estressante é exemplo de um contexto emocional negativo, uma vez que está associado a um sentimento de culpa.

Observando a junção dos três hábitos, podemos fazer melhores escolhas alimentares, tentando sempre nos permitir, com congruência ao estado do corpo e de acordo com o contexto.


A prática da permissão incondicional pode nos levar a alguns desafios. Trabalhá-la de forma a evitar a permissividade ou indulgência requer, às vezes, um acompanhamento  profissional (por um algum tempo). Seguir nossos sinais internos, confiando em quais momentos devemos iniciar as refeições, o quanto comer e quando parar são alguns desses desafios, que podem ser treinados como hábitos. Você se lembra do tamanho de sua fome hoje no almoço? O seu consumo foi proporcional ao tamanho dela?


Tente levar em conta, nos próximos dias, como você poderia ter mais permissão enquanto se aproxima dos sinais do corpo. Lembre-se de que a mente nem sempre está em sintonia com esses sinais. Muitas vezes, pensamos que deveríamos comer uma determinada quantidade, mas nem sempre é o que o nosso corpo está pedindo no momento. Refletir sobre a sintonia entre pensamentos e sensações do corpo pode te ajudar. Para aqueles que, por muito tempo, não confiaram nos sinais do corpo e se forçaram, segundo regras mentais, a se manter com pouca comida, esta tarefa muitas vezes é custosa, uma vez que requer adentrar o desconhecido. Mas lembre-se: isso faz parte de todo processo de autoconhecimento!






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