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  • Jônatas Oliveira

Por que comemos o que comemos?

Por que comemos o que comemos? Você já parou para pensar nessa pergunta? Será que comemos somente quando estamos com “fome”? Será que paramos de comer somente quando estamos saciados? Mas o que é fome e saciedade para você? A fome pode significar muitas coisas, pode ser um sinal fisiológico que se dá a partir de certos hormônios que aumentam quando você passa muito tempo sem comer, mas pode também ser algo que você aprendeu socialmente e nesse caso, a gama de significados se torna imensa. Você pode dizer que está com fome para ficar perto de alguém querido, você pode dizer que está com fome (mesmo já estando saciado), para comer alguma coisa deliciosa, você pode querer comer algo só porque vê que outras pessoas estão comendo ou tendo certas práticas alimentares, só para fazer parte de um grupo específico e desse modo se sentir parte de algo maior, você pode ainda dizer que está com fome para suprir uma falta que há em você, e essas faltas podem não ser de comida.

Onde quero chegar, afinal? Fome e saciedade (pensando mais amplamente) representam importantes sinais para comermos ou deixarmos de comer. E apesar de serem popularmente ligadas apenas ao fato de ficarmos um tempo sem comer (o que estimulará fome) ou o fato de já termos comido o suficiente (o que estimulará a saciedade), há muito mais nos bastidores humanos para tudo isso. A fome e saciedade também representam significados psicossociais importantíssimos. A rigor, podemos dividir o controle da fome/saciedade em sinais de “controle homeostático”, ou seja, aqueles ligados a secreção de certos hormônios (tais como a Grelina, Leptina e Colecistoquinina), e os sinais de controle “Não-homeostático”, e é aqui que a conversa fica muito mais ampla. Estes sinais Não-homeostáticos são aqueles ligados aos nosso Sistema de Recompensa cerebral, particularmente viabilizado por um neurotransmissor, a Dopamina, que age em regiões específicas do cérebro como na região do núcleo Accumbens. E o que estimularia esse nosso mecanismo de recompensa? Ansiedade, nervosismo, aprendizado, algo que te traga prazer e situações sociais. E é nesta última situação que quero debater.

Estes sinais sociais tem se mostrado importantes pontes para comermos o que comemos e podem até sobrepor nossos sinais Homeostáticos de controle de fome e saciedade. Veja se a situação seguinte não é comum: você passou a manhã toda sem comer pois saiu de casa para o trabalho às pressas. Você acabou de iniciar neste trabalho. Quando chegou a hora do almoço, já tarde, e você foi almoçar com seus colegas e chefe, se deparou com um buffet maravilhoso - lembremos que estava com muita fome pois não comeu de manhã. Mesmo com toda essa situação, já que estava na presença de seu chefe e colegas, seu prato foi apenas com uma saladinha leve, algumas lascas de frango grelhado e algumas gotas de azeite. Ainda que estivesse com muita fome (sinais homeostáticos) você agiu no sentido de se adequar aquela situação (situação social) de modo a se “ajustar” ao que julgou ser adequado: comer um volume pequeno de alimentos e alimentos com menos calorias já que estava na presença de pessoas que eram importantes para você naquele momento. Você precisa ou deveria ter comido tão pouco? É uma reflexão a ser feita.

Fazemos isso o tempo todo, e muitas vezes até sem nos darmos conta. Essa situação traz um conceito importantíssimo para a discussão: o conceito de normas sociais. As normas sociais sobre o comer são estímulos dispersos no ambiente, são “dicas” que o ambiente nos dá a respeito de como devemos nos adequar ou não ao que acontece à nossa volta. Essas normas sociais podem ser do tipo descritivas (como de certa maneira porque percebo que todos aqueles que são importantes para mim também comem assim) ou normas injuntivas (como de certa maneira pois acredito que aqueles a minha volta querem que eu coma assim). Estas normas são guias poderosos para nossos comportamentos (alimentares neste caso) porque se adequar ao comportamento dos outros, historicamente, foi algo vantajoso para nossa espécie.

A grande questão é que muitas dessas adequações, na atualidade, podem não fazer sentido pois certos comportamentos dos “outros” hoje, nem sempre geram benefícios para os indivíduos. É isso que venho estudando desde o mestrado (quando investiguei a influência das normas sociais sobre o comer de adolescentes) e agora no doutorado, no qual investigo as influências das mídias sociais (particularmente o Instagram) como importantes veículos de normas sociais poderosas, que passam a ditar formas corporais idealizadas, padrões de peso e formas de comer que as pessoas devem ter. Estas influências têm se mostrado muito relevantes para discussão em saúde, já que tais mídias apresentam perfis que passam a representar um grupo de referência para aqueles que os seguem. A presença de um grupo de referência que seja relevante ao indivíduo é uma das bases para a ocorrência das normas sociais, e perfis fitness de Instagram, por exemplo, tem se mostrado bastante relevantes para o público em geral no que diz respeito a uma visão bastante superficial do que é saúde. São perfis que geram uma expectativa muito grande em quem os acompanha. Há milhares ou até milhões de seguidores nesses perfis, o que leva o indivíduo a entender que muitos estão de acordo ou fazem aquilo que o perfil de Instagram prega. Ou seja, o fato de ver que que muitos “fazem” ou “concordam” com o que o perfil de Instagram faz, leva os indivíduos a também quererem se adequar aqueles comportamentos.

Temos então a situação perfeita para a expansão de normas sociais sobre o que e como comer para atender a certos padrões de corpo e vida. No final das contas, temos vários indicativos de que estas normas sociais veiculadas por tais perfis, geram códigos de conduta para comer isso e não aquilo, ter este corpo e não aquele e dessa forma agem na forma de comer das pessoas e no que fazem quanto ao corpo e saúde. E a grande questão é que essa mudança gerada pode ocorrer por meio de “pontes” prejudiciais a saúde como piora de autoestima, aumento de insatisfação corporal e piora das atitudes em relação à comida. Isso ocorre porque muitas das práticas veiculadas em tais perfis são práticas alimentares (e de exercício) restritivas e com um sentido punitivo aos indivíduos, o que gerará muita frustação. Em resumo vemos que estes são grandes controles Não-homeostáticos daquilo que comemos e que podem estar gerando efeitos deletérios importantes para a saúde das pessoas. É isso que testaremos em nosso estudo experimental.



Texto de Cesar Henrique.



Cesar é professor, mestre e doutorando em Nutrição pela Universidade de São Paulo (USP). É coordenador da pós-graduação em nutrição no Esporte da Nutrir Educacional.


Suas áreas de atuação são psicologia aplicada a nutrição (sua grande área de pesquisa) e nutrição no esporte, campos que juntos se misturam em seu trabalho de docência e clinica, sempre em busca de explorar os porquê de as pessoas comerem o que comem.

Instagram: @nutri_cesar

E-mail: cesarmoraesnutricao@gmail.com




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