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  • Jônatas Oliveira

História de questões com a comida

Atualizado: 28 de Nov de 2019

Quando as pessoas chegam no consultório, geralmente trazem questões atuais sobre alimentação, mas também alguns relatos daquilo que já vivenciaram tanto com a alimentação quanto com o corpo no passado. Costumamos até utilizar o termo “história de peso” quando investigamos as flutuações de peso e comportamentos envolvidos e, basicamente, muitas dietas acabaram acontecendo e, atualmente, quase todo mundo já fez alguma dieta.


Acontece que, para algumas pessoas e por diversas razões, a dieta é gatilho para o desenvolvimento de comportamentos disfuncionais como, por exemplo, a compulsão alimentar, checagem excessiva no espelho, compensações e pesagem frequente. Os diagnósticos clássicos de Transtorno Alimentar levam em consideração um conjunto de sintomas e contextos e nem todas as pessoas que tiveram passado com alguns destes comportamentos teriam recebido um “diagnóstico formal de TA”. Porém, mesmo para aqueles que não desenvolveram o TA, algumas marcas na memória, no metabolismo e na relação com a comida podem se estender para o resto da adolescência ou vida adulta.


Preparando este texto, recebi o seguinte relato: “O primeiro episódio foi com 14 anos, quando comecei a trabalhar, e engordei 10 kg em três meses. Não entendia o porquê daquilo e só pensava que era uma ‘tendência’ a engordar, já que sempre fui grande, alta. Depois de um tempo, consegui emagrecer e voltei a engordar mais de 10 kg com quase 18 anos no primeiro relacionamento sério.”


Não cheguei a perguntar muito sobre alguns fatores envolvidos nesse ganho de peso, mas é muito comum que algumas oscilações ocorram fora do “controle”. No entanto, eu trocaria esta palavra por “percepção”. Muitas vezes, o emocional e os sistemas de percepção e reflexão estão tão saturados com questões emocionais e vivenciais que, de fato, não percebemos a quantidade e os contextos daquilo que comemos.


Por outro lado, existem pessoas que se lembram de todos os pesos, fases de vida e comportamentos indutores para emagrecimento. Chega a ser interessante observar estes dois extremos: a desatenção para algumas fases e o extremo controle em outros casos. Ambos me parecem pouco funcionais e pouco intuitivos. O histórico de questões com peso e comida formam hábitos e constituem intenções, pensamentos, emoções e crenças atuais sobre a comida. Muitas vezes, o doce da infância que era muito gostoso hoje é motivo de sofrimento ligado ao exagero e compulsão alimentar.


Recebi outro relato onde se percebe as diferentes vivências e significados de emagrecer e engordar: “Na minha família, o peso sempre foi algo importante, todos são gordofóbicos. Eu inclusive, fui por muito tempo também, mas o peso não era uma questão para mim, afinal, eu era muito magra, raramente ganhava peso. Fui crescendo e, na adolescência, continuava magra e, como era algo de destaque positivo entre os meus amigos, eu achava o máximo ficar horas sem comer, porque me sentia com resistência e mantinha o que eu tinha de mais destaque que era meu corpo. Mas claro que tinha umas questões mais profundas e emocionais que descobri anos depois. Não sei em que momento foi, mas eu voltei a comer normalmente e permanecia magra, feliz com meu corpo. Até fazer 25 anos, lembro que, nessa época, meu metabolismo começou a ser mais lento e eu comecei a engordar, mas ainda me mantinha num peso que considerava meta. Aos 27, no auge de terminar a faculdade, comecei a compensar todo meu estresse de final de curso comendo. Comia muito e, sempre que estava mal, tinha necessidade de doce. Foi aí que engordei 10 kg. Quando me dei conta de como meu corpo estava, comecei a não gostar dele, começou um conflito interno de não me aceitar gorda e minha mãe apontar o tempo todo que precisava de dieta.”


Muito se fala em ressignificar estas associações e, para isto, é necessário um intenso trabalho de identificação dos motivos, escolhas, pensamentos e emoções ligadas ao consumo alimentar. Uma simples maçã no meio da tarde pode ser: 1) o lanche que a nutricionista prescreveu, 2) o que tinha em casa, 3) algo desejado ou 4) algo que foi consumido para evitar outro alimento. Compreender estes motivos pode nos levar à reflexão: será que não seria melhor dizer não para a maçã neste momento e optar por aquilo que é desejado? Será que comer a maçã neste momento não irá “alimentar” a restrição e proibição trazendo, depois, exageros alimentares?


O olhar de um profissional capacitado com uma abordagem diante do comportamento alimentar em parceira com um vínculo diferenciado com um indivíduo que carrega essas questões alimentares é importante para determinar se há, de fato, um comportamento disfuncional com o alimento, se há necessidade de intervenção e qual a melhor intervenção. De fato, não é simples seguir sozinho nessa estrada de dúvidas e paradoxos diante do comportamento com a alimentação. Podem-se gerar crenças perfeccionistas ou até mesmo fantasiosas que podem até piorar ou contribuir para o desenvolvimento de Transtorno Alimentar. Portanto, se você tem questões, especialmente as que lhe causam sofrimento, busque ajuda.


Este texto teve a colaboração de Dr. Leandro Figueredo (@dr.leandro.nutrologo)



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