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  • Jônatas Oliveira

Fazendo Escolhas Alimentares

Atualizado: Abr 15

Nesse final de semana fui em um restaurante grego. Havia acordado relativamente tarde e não havia realizado o café da manhã (só tomei um café puro). Antes de ir para o restaurante passei em um local para uma reunião breve, estava com fome, já era mais ou menos uma ou duas horas da tarde (não costumo prestar muita atenção no tempo quando estou na rua sem muitos compromissos). Chegamos ao restaurante e pegamos o cardápio que era pequeno branco com letras pretas e com uma curtíssima descrição dos pratos. Fazer as escolhas alimentares não é uma tarefa tão simples assim, comecei a refletir isso naquele momento. Primeiro li por cima procurando por algo familiar (geralmente fazemos isso quando não conhecemos o local), e vamos em busca daquilo que é familiar.


Não encontrei muitas preparações conhecidas, tirando uma salada específica, uma carne e um peixe. Mas de qualquer forma era tudo novo pois nunca havia comido naquele local. Quando a experiência alimentar é nova, não temos uma memória para acessar, portanto nossa capacidade de avaliar ou prever é diminuída. Eu não sabia como seriam os pratos, a quantidade e algumas preparações não conhecia (então jogamos no Google para descobrir). Algumas pessoas ficariam bem ansiosas e preocupadas com uma situação como esta, que parece estar totalmente fora do controle.


O dia estava bem quente, havia andado um pouco antes de chegar no restaurante e estava com fome. Não estava preocupado ou ansioso, mas tinha assuntos importantes para conversar na mesa (nada grave), e quando estamos com alguém importante focamos um pouco mais na pessoa, em como ela está. Tudo isso de alguma forma interferiu na escolha do prato. Percebi que pouco importava saber exatamente como o prato seria, eu me preocupava também com a escolha do outro, no sentido de cuidado. Pedimos as bebidas e a entrada primeiro.


Existe também uma questão social, pois dependendo da intimidade que temos com a pessoa, ou do número de pessoas na mesa, podemos modular nossas escolhas alimentares colocando estes fatores em cheque. Muitas vezes estes fatores falam mais alto do que nossas preferências e estado do corpo, então muitos acabam se perdendo em comportar-se de uma forma socialmente aceita. Algumas pessoas se importam muito com o pensamento do outro, daquilo que pode ser dito ou daquele momento de bancar uma escolha e sinalizar aos outros “vou pedir esse prato”. Muitas vezes isso é mais importante do que o tamanho da nossa fome.


A entrada e a salada vieram bem caprichadas, ambas tinham mel na preparação e chegamos a comentar que estávamos bem saciados dividindo aqueles pratos. A saciedade é um sinal interessante do corpo, que na verdade começa com uma sensação de preenchimento estomacal (chamada saciação) e depois é que a presença de nutrientes disponíveis para o corpo também nos guiará ao momento de “estou bem”, não precisando mais comida. Nem sempre este momento coincide com o término do prato, pois ele pode ocorrer um pouco antes, e você pode decidir por comer mais ou parar. Neste momento colocamos em cheque o quão satisfeitos estamos com aquela refeição, com o momento, com a conversa e com o ambiente. Existem locais onde podemos ficar por horas confortavelmente conversando, e isso pode nos estimular a aproveitar mais a comida, e talvez comer um pouco mais. Locais mais movimentados e fechados e quentes, pelo menos para mim, representam um ambiente menos acolhedor, e geralmente terei a tendência de comer mais rápido para querer sair logo dali.


Existem também intenções que nos levam a comer ou não. Você pode simplesmente consultar o cardápio antes de ir ao local e já ter em mente aquilo que vai comer. Existem pessoas que fazem isso dentro de um intervalo de tempo relativamente grande, o que pode não ser tão interessante pois não sabemos de fato como estará o estado do nosso corpo no momento da refeição. Então porque decidir o que comer com tanta antecedência assim? Ao mesmo tempo isso dá uma sensação de descontrole para alguns, que pode vir em um pensamento de “Como eu vou sair e ir em um local sem saber o que servem lá?”.


Bom, te diria que é importante pensar de uma forma mais flexível. Se você vai em uma lanchonete não espere comer risoto lá, e se for em um restaurante italiano talvez não encontre muitas opções de peixes. Não precisamos saber exatamente o que comer em todos os dias ou quando vamos em um local, pois isso representa um nível de rigidez que ninguém precisa. Que tal se permitir apreciar um cardápio utilizando sua imaginação para pensar: como seria comer esse prato? Nossa, será que isso é bom? E posso perguntar para as pessoas ou para o garçom sobre o prato, ou posso me permitir experienciar algo novo.


Para além do ambiente e da nossa predição de como seria a experiência podemos colocar nessa equação o estado do corpo. Podemos considerar a frequência em que alguma comida específica foi consumida, e podemos utilizar um pouco de nossas intenções para ponderar a escolha. Comidas conhecidas podem ter um resultado em volume e saciedade esperados, e comidas não conhecidas podem ser apreciadas e consumidas até que nossa experiência seja agradável e satisfatória. Em suma fazer escolhas alimentares é um desafio no mundo moderno, cheio de variedade de opções e preparações, e que o mesmo tempo está cheio de mensagens para comer ou não comer, com pessoas que querem ditar regras alimentares e com nossas próprias crenças alimentares que perturbam às vezes. Fazer escolhas alimentares nunca foi tão difícil, mas a arte da escolha é um processo interessante, que requer autoconhecimento e confiança e, claro, muitos questionamentos sobre a nossa interação com o ambiente e como interpretamos essa dinâmica.




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