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  • Jônatas Oliveira

Emagrecimento e Felicidade

Para a maioria das pessoas e dos profissionais de saúde, emagrecimento nada mais é do que a diminuição de gordura. No entanto, apesar de esta ser uma definição correta, o conceito vai muito além, transpassando diversos assuntos que têm reflexos sociais e emocionais de impacto muito maior do que a diminuição da gordura corporal em si. Estes impactos dependem também da forma como nos enxergamos e da ótica de quem nos vê. Sendo assim, muitas vezes, o comentário externo não vai muito ao encontro de nossas expectativas, ou seja, alguém pode dizer que houve emagrecimento, mas, internamente, o indivíduo elogiado não se “sente magro”. Seria, então, a magreza um sentimento? Por que as pessoas dizem “me sinto gorda”?

Embora pareça, não estamos falando de sensações, mas de como o emagrecer ou o engordar está associado a uma série de representações sociais e emocionais. Sabe aquele comentário: “Nossa, como você emagreceu”? Enquanto ouve isso, você se questiona: “Mas eu me pesei ontem e não aconteceu nada!”


A verdade é que, neste processo de diminuição da gordura, uma série de processos na imagem corporal, satisfação e autoestima está em jogo. As emoções, então, podem oscilar de acordo com os eventos. Para muitos, o emagrecer remete à primeira dieta e isso está automaticamente associado a uma sensação de mal-estar (por estar em dieta). Mas existe também aquela sensação boa do resultado da primeira dieta restritiva, aquela em que se vão 10 a 20 kg, que deixa marcas na memória e no metabolismo. Na literatura médica, a tendência de uma adaptação no metabolismo ocorrendo a cada ciclo de dieta está bem estabelecida.

É interessante analisarmos os motivadores desse primeiro processo. Poderíamos pensar, por exemplo, em uma criança que tenha sofrido bullying. Esta experiência gera um estado emocional negativo que, ao emagrecer, ganha um novo status, possivelmente experienciado como um estado positivo (“agora que emagreci não sofrerei mais bullying”). Na verdade, a dor, quando cessa, não traz necessariamente uma sensação positiva, mas sua ausência indica, ao menos, uma mudança.


Digamos que essa criança comece a ser mais elogiada por emagrecer ou tenha mais direitos em casa, comendo as mesmas coisas que os irmãos, por exemplo. A tendência das associações é de que a criança passe a relacionar o emagrecimento com experiências positivas, fazendo com que a representatividade da felicidade esteja associada à sua imagem corporal, reforçada pelo imenso conteúdo contido em mídias, filmes e imagens. Neste emaranhado, surge, então, a crença de que a vida do(a) magro(a) é melhor. 


No Transtorno Alimentar ou nas dificuldades extremas com a comida, muitas vezes, os indivíduos oscilam muito no campo das emoções, passando pela tristeza de fazer dieta e negar a fome e os desejos e, por alguns momentos, buscando a felicidade na comida, mas infelizmente a perda de controle (exageros e compulsão alimentar) acaba trazendo mais tristeza. Seria, então, a dieta um produto que promete um resultado e entrega outro? 

Falar de emagrecimento esbarra em uma série de aspectos da autoestima (a visão que temos sobre nós mesmos, positiva ou negativa) e da nossa forma de ver o mundo. Muitos têm a crença de que o magro(a) é mais feliz. Porém, confunde-se felicidade com melhora na qualidade de vida. Não tenho dúvidas de que, para um caso com indicação de emagrecimento, haverá melhora na autoestima e qualidade de vida, mas a forma como este processo é realizado pode ser determinante. 


Qualidade de vida é o mesmo que felicidade? Será que o resultado emocional que esperamos com o processo de emagrecimento é real ou buscamos apenas uma sensação nunca vivida e, portanto, não conhecida? O padrão de beleza atualmente é praticamente inatingível, sendo, para as mulheres, um corpo magro e sarado e, para os homens, um corpo sarado e volumoso. Ter estes corpos custa caro, custa muito empenho e custa abrir mão de muitas coisas. Infelizmente, as modelos que vivem para isso e ganham para isso são também modelos de modos de ser e de estilos de vida para você, mulher, que lê esse texto sentada em seus afazeres do trabalho seja ele qual for.


Mas, nutri, o que você quer dizer com isso? Para desistirmos de emagrecer? A minha resposta é não! Apenas trago alguns poucos elementos para que você avalie, sem julgamentos, se as expectativas que você tem sobre o emagrecimento são, de fato, reais. E como descobrimos isso? Um bom exercício é pensar naquilo que você deixa de fazer por conta do peso, mas que outros com corpo parecido se permitem fazer: frequentar determinados locais, tirar a camisa na praia ou na piscina, usar um tipo de roupa, comer algum tipo de alimento, comer em público etc. Se existem muitas condições para fazer coisas do cotidiano, coisas comuns como caminhar na praia, frequentar locais e usar uma roupa. Se estas condições estão atreladas ao “quando emagrecer farei isso”, então acho que você está perdendo oportunidade de ser feliz.






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