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  • Jônatas Oliveira

Afinal, comer é um vício?

1. Primeiro, o que caracteriza o vício em comida? É algo psicológico ou é uma ''dependência química"?


Vício em comida é um termo popularmente utilizado e que antigamente apareceu em pesquisas como no exemplo de Randolph, que em 1956 definiu como “Uma adaptação específica de um ou mais alimentos consumidos regularmente, que em uma pessoa muito sensível, produz um padrão de sintomas semelhante a outros processos aditivos”. Quando eu fazia nutrição na UNIFESP utilizava modelos animais para tentar induzir a compulsão alimentar com biscoitos recheados, na época acreditávamos que a comida poderia ser indutora para o desenvolvimento da compulsão alimentar. Com o passar do tempo fomos observando que a comida tem uma menor relevância, mas que a relação que as pessoas estabelecem com a comida é algo bem mais importante.


A sensação de sofrimento que as pessoas tem quando desejam comer algo reflete boa parte dessa relação com a comida. O surgimento da consciência da falta (quando a pessoa se vê sem a comida e desejando) e o sentimento negativo dessa falta, fazem a pessoa pensar que é dependente do alvo desejado. O fácil acesso ao consumo e oportunidades para pedir comida por aplicativos facilita a consumação do desejo, ou seja, atender os desejos nunca foi tão fácil.


Não existe ate hoje algum estudo que tenha encontrado um principio ativo ou substância capaz de viciar uma pessoa quando falamos sobre comida. Na verdade, as pessoas tem dificuldade em entender e diferenciar alguns temos completamente diferentes como por exemplo, desejo, fissura, prazer e vicio (cada um destes tem um significado próprio).




2. Existem pessoas mais propícias a desenvolver esse problema?


Existem pessoas com vulnerabilidade para desenvolver problemáticas alimentares, e que dentro destas, pode ocorrer a perda de controle sobre o consumo e a impulsão e busca pelo consumo (desejo intenso). Pessoas que querem emagrecer ou que tem compulsão alimentar se sentem muitas vezes incapazes de controlar um desejo por comida ou diminuir o consumo, e logo irão se julgar como viciadas em comida. Por conta disso, quando falamos em vicio em comida é preciso ter cautela com o relato que o paciente traz, porque ali existem crenças, pensamentos e significados muito específicos sobre a comida e sobre o comer.


A forma que fomos criados e os exemplos familiares de como lidar com as situações da vida também podem fazer parte desta vulnerabilidade para desenvolvimento do sofrimento psíquico. Alguns moldes estão associados com o desenvolvimento da depressão, como por exemplo, as pessoas foram ensinadas que tinham que ser ‘boas o suficiente’, ‘que tinham que dar o seu melhor’ e que teriam que ter ‘sucesso a qualquer custo’. Da mesma forma muitos de nós fomos criados pensando que alguns alimentos eram mais ‘nocivos e proibidos’ do que outros, que tínhamos que ter ‘controle sobre a alimentação. O mesmo ambiente que oferece muitos alimentos também está cheio de mensagens que associam o autocontrole ao sucesso e a magreza com a felicidade.




3. Existem alimentos que são mais viciantes que outros? Pq isso ocorre?


Os conflitos para realizar escolhas alimentares permeiam a moralidade e desta forma “vício em comida” acaba sendo um termo muito bem aceito pelas pessoas que acabam se identificando com o termo. A visão que as pessoas tem sobre dependência química ainda é muito equivocada, e o termo “perda de controle sobre a comida” acaba encontrando sentido nessa dinâmica. Acontece que comida não causa dependência, portanto trata-se de um sofrimento e um mecanismo psicológico que as pessoas chamam de vício.


Costumamos desejar aquilo que não temos, e aquilo que é necessário também. Comida é necessária para garantir a manutenção da vida, portanto ela será desejada. Existem mecanismos internos que nos impulsionam para comer, e eles não são passiveis de autocontrole como imaginamos. Quando as pessoas se submetem a dietas como low-carb ou se propõem a cortar o açúcar totalmente da alimentação, elas estão entrando em um modo de autocontrole alimentar que automaticamente vai gerar pensamentos sobre comida (sobre aquilo que não se deve comer), desta forma o alvo não desejado (“não posso comer chocolate”) irá se transformar em um processo elaborativo, como quando pensamos e imaginamos como seria gostoso comer um chocolate. Essa tarefa é problemática para quem está tentando se controlar.




4. Existe algum tipo de diagnóstico e tratamento pra esse vício?


Existe uma escala publicada por pesquisadores da Universidade de Yale que tenta mensurar esse padrão alimentar que se assemelharia a um vicio. Porém muitos pesquisadores criticam a escala considerando que diagnósticos são sempre dados por um observador, no caso um psiquiatra. Escalas onde uma pessoa irá responder o que ela acha ou sente sobre algo são dados que devem ser interpretados com muita cautela.



5. Tem como evitarmos desenvolver esse vício em comida?


Em um estudo que publicamos recentemente foram analisadas 190 mulheres, e de acordo com a escala de vicio em comida de Yale 95% (n = 181) tinham vício em comida. Porém um dado inesperado que observamos foi que os escores da escala apresentaram correlação negativa com a autocompaixão. Foi o primeiro estudo brasileiro que verificou a prevalência de vicio em comida em mulheres com compulsão alimentar. Quando falamos em autocompaixão, basicamente estamos reunindo uma definição da forma que as pessoas se tratam quando existe um sofrimento, no caso da comida ele poderá ser chamado de dificuldade em controle ou “vício em comida”. Existe também uma noção fatalista de que o vício é algo incontrolável, e na verdade quando as pessoas se identificam com esse termo a probabilidade de mudanças comportamentais diminui.


Uma questão presente nessa escala que trata do comportamento alimentar é: “Eu continuei comendo da mesma forma, mesmo este fato tendo me causado problemas emocionais”. Quando paramos para analisar essa questão na verdade percebemos que é mais uma forma de julgar a relação com a comida que não está melhorando por estratégias de autocontrole. Não basta saber quanto o corpo gasta e quanto ele precisa consumir se não forem trabalhadas as formas de buscar alimento e as escolhas alimentares. Atualmente, são poucas as pessoas que não foram expostas aos fatores socioculturais aqui citados, portanto a grande maioria delas não vai se beneficiar de uma abordagem reducionista. Esse papel não ajudaria um indivíduo a lidar com 1) momentos de angústia em que recorremos apenas à comida; 2) momentos de permissividade, em que não aguentamos mais e dizemos "dane-se, vou comer"; 3) momentos em que nos vemos no espelho e o ganho de peso traz tristeza; 4) momentos em que algo fala mais forte e não queremos cozinhar ou montar uma refeição; 5) momentos em que perdemos o controle e temos uma compulsão alimentar ou 6) momentos onde a vontade de fazer exercício só surgiu porque comemos algo considerado "fora" do planejado ou uma quantidade maior.







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