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  • Jônatas Oliveira

A Neurociência do Comportamento Alimentar

As pessoas muitas vezes se denominam como “chocólatras” ou até mesmo “amantes” de determinados tipos de alimentos, revelando uma “paixão descontrolada”. Apesar disso, existe uma diferença entre aquilo que é relatado e o que de fato acontece, e por isso a avaliação de um especialista é necessária em casos de dúvida. Assim, quando um comportamento passa a ser “descontrolado” ou quando a pessoa perde o controle sobre sua vontade e aquele comportamento a “domina”, podemos acender uma luz de preocupação.

Hoje em dia, observamos que, existem mais momentos onde se come por diversos motivos que não sejam relacionados com a necessidade do corpo ou para “matar a fome”, e as razões pelas quais as pessoas comem para além de suas necessidades são, em parte, psicológicas e emocionais. Podemos pensar em motivos positivos para comer, como quando comemos em uma festa, celebramos alguma conquista com um jantar diferente ou queremos uma refeição mais acolhedora. Existem também momentos de negatividade, em que, para alguns, a impulsividade entra como uma forma de lidar com a situação, e podem ocorrer descontroles ao comer. Muitos afirmam que esse comer “descontrolado” pode ser tão viciante quanto o consumo de drogas, passando de um comer pela sobrevivência para um comer apenas pelo prazer em vez de, alimentar-se para sobrevivência, tomam um caráter de atender o prazer de comer. Existe muita discussão na literatura e ainda não foi comprovado que a comida possa viciar.

Em relação ao funcionamento cerebral, existem circuitos que formam uma rede responsável pelo sistema funcional do prazer, também associada a três comportamentos distintos, que trabalham ativando neurotransmissores responsáveis pelo controle da sensação de prazer: gostar, querer e aprender. O controle da sensação de GOSTAR está localizado no Núcleo Accumbens, e os neurotransmissores relacionados a esse comportamento são produzidos com o objetivo de direcionar a atenção para atividades que garantem a sobrevivência como, por exemplo, a busca alimentar. Quando gostamos de algo, o próximo passo é ativar o processo de QUERER, (afinal, se eu gosto, tenho a tendência de desejar ter aquela experiência novamente). Nosso cérebro faz isso com maestria, ativando um neurotransmissor chamado dopamina no nosso sistema límbico, que se manifesta através de um pensamento automático, involuntário e repetitivo. Já o terceiro componente do controle da sensação de prazer é o APRENDIZADO. Cada vez que trazemos uma memória à consciência, por exemplo, um evento, um comportamento, uma sensação, acabamos por fazê-la perdurar, ou seja, quanto mais você se lembra de um fato, mais a sua memória é reforçada, e cada lembrança virá com mais facilidade e naturalidade, tanto para lembranças negativas quanto positivas.

Entrando em dilemas atuais sobre a área de estudos em comportamento alimentar, quando pensamos na ideia de que o consumo de alimentos tem sido, atualmente, muito mais relacionado aos aspectos psicológicos e emocionais (para alívio de sensações negativas, por exemplo), percebemos como indivíduos emocionalmente instáveis apresentam vulnerabilidade para desenvolver padrões de comportamento descontrolados. Por outro lado, a importância de considerar a alimentação como parte social de nossa vivência traz o questionamento: É possível comer com liberdade, atendendo a desejos, mas também sabendo os momentos em que devemos parar de comer?

Para aqueles que apresentam uma vulnerabilidade e desenvolveram, junto à comida, formas de lidar com as emoções e pensamentos específicos, existe um grande risco de iniciar uma Transtorno Alimentar. Isso se deve, em parte, ao fato de estarem vivenciando um período de vivência intensa das emoções, criando assim laços emocionais com a comida, gerado através de um comportamento condicionado que ativa a rede de controle do prazer, tornando a comida um refúgio emocional.

Para isso, é necessário conhecer nossos limites, não por meio de regras alimentares rígidas ou até mesmo orientações que ouvimos de conhecidos ou profissionais, mas entendendo como o corpo nos envia sinais específicos de fome, plenitude gástrica, desejo por comida, desconforto associado ao comer e saciedade.

Fazer o balanço entre as sensações do corpo e nossas preferências alimentares (gostar e querer) é particularmente difícil considerando a cultura alimentar em que estamos inseridos, onde, ao mesmo tempo em que há uma grande disponibilidade de alimentos, as pessoas falam sobre suas insatisfações corporais. O padrão de corpo é cada vez mais inatingível e as pessoas não sabem mais o que comer. Mas podemos considerar que essa rede de controle do prazer pode ser modificada, através de intervenções psicológicas, neuropsicológicas e nutricionais, que podem auxiliar na modificação dessa relação com a comida e com as questões emocionais envolvidas no processo de satisfação do prazer alimentar.

Texto escrito em colaboração com Andreza Carla Lopes

Andreza é Neuropsicóloga, Psicóloga Clínica, Doutoranda e Mestre em Ciências do Programa de Neurociências e Comportamento da USP, Coordenadora da Equipe de Neuropsicologia do Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP. Atua em São Paulo no Atendimento Psicológico Clínico, Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica de Crianças, Adolescentes, Adultos e Idosos.


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