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  • Jônatas Oliveira

A importância da Nutrição com enfoque em Comportamento

Estamos vivendo novos tempos no campo da alimentação e nutrição. Enquanto a ciência da nutrição cresce, nosso conhecimento sobre funções e metabolismo de nutrientes ou compostos bioativos aumenta. Isso gera não só valor ou maior importância para uma alimentação equilibrada e saudável, mas também avanço em pesquisas que tentam compreender a alimentação como fenômeno mais amplo que, para além da função biológica, compreende a sociedade e a cultura (biopsicossociocultural).


Em vez de explicar o termo, acredito na importância de utilizar um exemplo. Atendi um homem com queixa de compulsão alimentar. Para investigar como o histórico de peso e a relação com a comida poderiam estar associados ao estado atual, questionei como era a alimentação dele no passado. Na resposta, relatou não saber o que era sódio e que, ao receber uma recomendação para consumi-lo menos, procurava por rótulos onde não houvesse o nutriente. Imaginando que ele tenha entendido equivocadamente, refiz a pergunta e, novamente, o discurso sobre conhecimento nutricional apareceu. Não houve erro de comunicação. O paciente, de fato, achava que sua relação com a comida era baseada em conhecimento nutricional. Isso não é errado, mas deixa claro como estamos cheios de informações, mas pouco sabemos sobre a forma como estamos comendo, o que sentimos, pensamos e acreditamos. Olhar para a alimentação requer uma abordagem não reducionista, que faça uso de técnicas específicas para estudar a forma como as pessoas se alimentam, suas crenças, suas emoções ao comer e a relação de todos estes fatores com o conhecimento nutricional que elas têm. Muitas vezes, as dificuldades alimentares resultam justamente da relação que foi estabelecida entre o saber e as crenças e pensamentos sobre comida.


A nutrição comportamental surgiu no Brasil como abordagem pautada em ciência e que reúne as diversas metodologias, práticas e técnicas voltadas para um olhar biopsicossociocultural sobre a alimentação. Quando entendemos que o comer é o resultado de uma construção com base em eventos significativos que ocorreram na vida, na nossa bagagem biológica e na interação entre organismo e ambiente, fica claro que dizer às pessoas o que precisam comer não basta. Pode ser importante ter algum conhecimento nutricional - de preferência com embasamento científico -, mas sabemos atualmente, pelas conclusões dos estudos em comportamento alimentar, que a presença da informação nutricional não garante melhores escolhas.


Escolhas alimentares se beneficiam da educação alimentar e nutricional, porém uma abordagem como a nutrição comportamental, considera fatores socioculturais como, por exemplo, 1) exposição à mídia, 2) estereótipo de peso, 3) insatisfação corporal, 4) prática de dieta 5) falar sobre estar gordo, 6) comer emocional, 7) perfeccionismo e 8) o ideal de supermulher. Além disso, no último meio século, o padrão de corpo feminino foi se estabelecendo cada vez mais magro e inatingível. Em meados do século XX, o ideal de corpo era algo semelhante ao Índice de Massa Corpórea (IMC) de 19 a 21, que evoluiu para o atual IMC de 18 (Urquhart & Mihalynuk, 2011).


Estes fatores certamente estão presentes no desenvolvimento de hábitos alimentares e na formação do comportamento humano. Seguimos muitos dos modelos que o ambiente e as pessoas do nosso convívio utilizam, e isso acaba determinando preferências alimentares, costumes e celebrações em torno da comida, ou seja, uma série de significados atribuídos ao momento da refeição e, para além disso, os desdobramentos do comer (Sobal & Bisogni, 2009). Muitas vezes, a insatisfação corporal se inicia na infância com uma conversa durante uma refeição, por exemplo. Como as crianças têm uma tendência maior a acreditar no que os pais e adultos dizem, uma crítica à imagem corporal pode ser facilmente internalizada. As implicações dessa influência e o consequente desejo de adequação para ser aceito ou mais amado contribuem para uma visão negativa de si mesmo e para o aumento da autocrítica. Assim, novos significados são dados à comida, como “comer engorda” ou “quem come tal coisa não consegue emagrecer”, "é preciso comer tudo para ficar forte”.

Quando uma pessoa que passou por todo esse histórico de readequação, por meio de dietas diversas e práticas não saudáveis como fazer jejum, pular ou terminar as refeições ainda com fome ou utilizar medicações para emagrecer sem prescrição médica, o estado do corpo, seu metabolismo e a mentalidade alimentar estão todos alterados por essas práticas e por anos de costumes alimentares. Podemos dizer que a “microcultura alimentar” foi estabelecida, e uma simples prescrição de quais alimentos e quantidades consumir não basta. Não basta saber quanto esse corpo gasta e quanto ele precisa consumir se não forem trabalhadas as formas de buscar alimento e as escolhas alimentares. Atualmente, são poucas as pessoas que não foram expostas aos fatores socioculturais aqui citados, portanto a grande maioria delas não vai se beneficiar de uma abordagem reducionista. Esse papel não ajudaria um indivíduo a lidar com 1) momentos de angústia em que recorremos apenas à comida; 2) momentos de permissividade, em que não aguentamos mais e dizemos "dane-se, vou comer"; 3) momentos em que nos vemos no espelho e o ganho de peso traz tristeza; 4) momentos em que algo fala mais forte e não queremos cozinhar ou montar uma refeição; 5) momentos em que perdemos o controle e temos uma compulsão alimentar ou 6) momentos onde a vontade de fazer exercício só surgiu porque comemos algo considerado "fora" do planejado ou uma quantidade maior. 

Assim, com o uso de técnicas que podem ser utilizadas de acordo com o contexto ou a demanda, o nutricionista agora pode se utilizar de abordagens da terapia cognitivo-comportamental, do comer intuitivo, do comer com atenção plena (mindful eating), ou até mesmo o mindfulness e terapias focadas na autocompaixão, competências alimentares e entrevista motivacional. A prática e estudo destas técnicas, ou parte delas, contribui para uma abordagem que ampara o indivíduo em momentos de escuta, reflexão, questionamentos e direcionamentos que acontecem durante a consulta onde se trata sobre o comer e a mudança. 

Urquhart, C. S., & Mihalynuk, T. V. (2011). Disordered eating in women: implications for the obesity pandemic. Canadian Journal of Dietetic Practice and Research72(1), e115-e125.

Sobal, J., & Bisogni, C. A. (2009). Constructing food choice decisions. Annals of Behavioral Medicine38(suppl_1), s37-s46.



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